Olínia 1 é elétrico mexicano pau para toda obra de R$ 45 mil
O México deu um passo simbólico em sua estratégia de eletrificação. Depois de apenas 18 meses de desenvolvimento (e quatro dias antes do previsto...), o governo do país apresentou oficialmente o Olinia 1, primeiro veículo elétrico concebido dentro de um programa nacional que reúne universidades, centros de pesquisa, empresas estatais, órgãos federais e investidores privados.
Mais do que um carrinho elétrico, o Olinia é apresentado como um projeto de política industrial. A proposta é desenvolver qualificação técnica local em áreas estratégicas como baterias, software, inteligência artificial, design industrial e infraestrutura de recarga.
O Olinia 1 não é exatamente um carro convencional — está mais para um tuk-tuk bem evoluído. Lembra também veículos como os atuais Citroën Ami e Fiat Topolino, vendidos na Europa como soluções de "micromobilidade elétrica" ou "mobilidade urbana elétrica". É, contudo, maior e mais útil que esses pequeninos modelos da Stellantis, que levam apenas duas pessoas.
O modelo mexicano pode transportar até seis ocupantes sentados. São dois lugares na frente, dois fixos atrás e mais dois banquinhos escamoteáveis no meio da cabine.
No acabamento interno, tudo é de plástico resistente. O motorista vai sentado em uma posição alta, cômoda, e há assistência elétrica na direção. A ideia é que o profissional não se canse ao passar longas horas trabalhando.
“Para nós, desenhar melhor nunca significou fazer algo mais complicado, e sim entender bem as necessidades reais dos nossos usuários e dar uma solução aos problemas que enfrentam no dia a dia”, explica Rafael Garayoa, diretor técnico do projeto.
No México, o Olinia 1 já provoca bastante polêmica por não ser equipado com airbags, ESP ou qualquer tipo de ADAS. Será preciso criar uma legislação específica em que o veículo possa se enquadrar.
Vale dizer que o Nissan Tsuru de terceira geração (1992-2017), por longos anos campeão de vendas no país e favorito dos taxistas, foi retirado de linha justamente por não oferecer proteção adequada contra impactos nem trazer airbags ou ABS.
A estrutura é tubular. Apesar da silhueta de paralelepípedo, focada no aproveitamento de espaço, o Olinia 1 tem uma carinha amigável, especialmente pelos faróis redondos (full-LED) e pela grade dianteira que lembra uma boca aberta. A placa, quando for instalada, lembrará dois dentes incisivos...
Segundo os responsáveis pelo projeto, a identidade visual foi inspirada em um coelho. O símbolo da marca, aliás, é um coelhinho alado.
A proposta do Olinia não é competir com automóveis convencionais. Seu objetivo é permitir deslocamentos urbanos curtos e a baixo custo, substituindo principalmente táxis e mototáxis (tuk-tuks).
O modesto motor elétrico de 18 cv leva o veículo a uma velocidade máxima limitada a 50 km/h. Segundo os projetistas, seu forte é a força em situações de trânsito e subidas. Falando em ladeira, o Olinia tem tração traseira. Pontos importantes como torque e peso do veículo não foram revelados na apresentação.
A energia é fornecida por uma bateria de 14,7 kWh instalada sob o banco traseiro. Segundo os responsáveis pelo desenvolvimento, o conjunto permite uma autonomia em torno de 125 quilômetros.
Seu padrão de carregamento é o NACS (North American Charging System), o mesmo dos Tesla, mas o Olinia 1 também pode ser conectado diretamente a tomadas caseiras, dispensando equipamentos especiais. Nesse caso, a carga total se dá em 10 horas.
Uma das preocupações foi certificar o sistema elétrico no padrão IP67, que garante proteção contra poeira e resistência à imersão. Esse padrão internacional indica o grau de blindagem dos componentes de alta tensão do veículo, como baterias, motor e inversores.
IP vem de Ingress Protection (proteção contra ingresso de partículas e líquidos). O dígito 6, no caso, representa o nível máximo nessa escala, significando que o sistema é totalmente vedado contra poeira. Já o 7 indica que o veículo pode permanecer submerso em até um metro de água por até 30 minutos, sem que ocorra infiltração capaz de provocar danos ou curto-circuito. A ideia é que o Olinia possa enfrentar alagamentos e resistir a inundações.
Segundo os dados divulgados pela fabricante, o custo operacional fica em torno de 0,49 peso mexicano (R$ 0,15) por quilômetro rodado, aproximadamente um quinto do que gastaria um compacto movido a gasolina ou metade do custo de operação de uma moto.
Com isso, os idealizadores estimam uma economia anual superior a 50 mil pesos mexicanos (R$ 15 mil) em combustível para quem roda 75 quilômetros por dia.
A ideia é que, além de econômico, silencioso e útil no dia a dia, o modelo tenha preço popular. O Olinia 1 chegará ao mercado mexicano com valor inicial de aproximadamente 150 mil pesos mexicanos (R$ 45 mil, na conversão direta). As primeiras entregas estão previstas para junho de 2027.
Inicialmente, o índice de nacionalização será de 50%, e a meta é elevá-lo para 75% até 2030.
Olinia significa "movimento" em náuatle, língua pré-colombiana ainda hoje falada por cerca de 1,7 milhão de pessoas em várias regiões do México. Desde o início, a proposta era criar um veículo desenvolvido por engenheiros mexicanos e produzido localmente.
Para isso, o projeto reuniu instituições como o Instituto Politécnico Nacional (IPN), o Tecnológico Nacional de México (TecNM), a Secretaria de Ciência, Humanidades, Tecnologia e Inovação, além de órgãos ligados aos setores de energia e meio ambiente.
Também participaram a estatal de lítio LitioMX e a Comissão Federal de Eletricidade, responsável por parte da infraestrutura de recarga. Já estão em andamento estudos para instalar 2 mil pontos de recarga no país.
Um dos objetivos é criar uma cadeia tecnológica nacional capaz de desenvolver componentes, software e sistemas associados à mobilidade elétrica, embora apenas 15% a 20% da matriz energética mexicana hoje venha de fontes limpas e renováveis.
Apesar da motivação nacionalista, especialistas e empresas da China, dos Estados Unidos, da Índia e da Alemanha colaboraram no projeto e na fabricação dos componentes do protótipo, desenvolvidos do zero.
“É um veículo criado no México e para o México. Construir indústria nacional, porém, não significa isolar-se, mas aprender e integrar capacidades”, diz Roberto Capuano Tripp, coordenador do projeto.
Vale lembrar que o México já é um importante polo de produção de veículos elétricos para exportação. Modelos como o Chevrolet Equinox EV, o Ford Mustang Mach-E e o Chevrolet Blazer EV são fabricados no país.
A diferença é que essas são operações de fabricantes dos Estados Unidos, enquanto o Olinia representa uma tentativa de criar um veículo elétrico de desenvolvimento nacional, utilizando conhecimento local e uma cadeia produtiva própria.
O modelo de negócios do Olinia prevê que o governo mexicano financie as etapas de pesquisa, engenharia e desenvolvimento do veículo. Trata-se de um empreendimento de capital misto, com fins lucrativos e relevante participação acionária do Estado. A produção em si ficará a cargo de um parceiro industrial privado com experiência no setor automotivo.
O plano é começar com algo entre 7 mil a 10 mil unidades no primeiro ano e aumentar gradualmente esse volume até atingir 50 mil veículos anuais em 2032. Se tudo correr conforme o previsto, essa expansão da capacidade fabril deverá contar com a entrada de investidores privados para aportar capital ao projeto.
Os próximos passos incluem o lançamento de uma versão de carga, chamada Olinia Cargo, que deverá ser apresentada logo após o término da Copa do Mundo.
“Dos sete maiores produtores de carros do mundo no ano passado — China, Estados Unidos, Japão, Índia, Alemanha, Coreia do Sul e México — só nós não temos uma marca nacional própria. O que estamos fazendo não tem nada de absurdo. Na verdade, o absurdo é que isso não tenha acontecido antes”, analisa Capuano Tripp.
* Jason Vogel/Motor 1.












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