domingo, 4 de novembro de 2012

>>> OBRA DE ARTE


Ford F-100 1956, uma obra de arte de Chip Foose

Além dos carros incríveis customizados em apenas uma semana, o programa Overhaulin’, do Discovery Channel, ficou famoso pelas pegadinhas com os donos dos veículos. Com a maioria dos quase 100 modelos modificados em cerca de 90 programas, divididos em cinco temporadas, foi simulado um furto do veículo e havia atores vestidos como policiais, no melhor estilo Pegadinha do Mallandro ou Topa Tudo por Dinheiro…

O maestro das modificações, Chip Foose, provou do próprio veneno: há três anos, o então produtor do programa, Bud Brutsman, armou a tal pegadinha para o customizador. Foi simulado o roubo de sua picape Ford F-100, uma das 127 mil fabricadas em 1956. Aos 14 anos, Foose comprou a picape de seu pai, Sam, que tinha uma oficina onde ele passava dia e noite. As alterações foram baseadas em algumas linhas que Foose havia traçado para o utilitário e o patriarca da família se encarregou de pegar os tais rascunhos para o projeto do Overhaulin’. Chamado de Overlord, o episódio levou cinco meses para ser filmado, pois a mesma equipe que finalizava um carro por semana ainda montava a picape, em paralelo, trabalhando escondido do mestre.


O cara ficou tão surpreso quanto os participantes do programa e hoje esse é o único veículo que o californiano, com 45 anos, diz não vender por nada. Ele promete passá-lo para seu filho, Brock. Diferente dos episódios convencionais, a picape pronta foi revelada no estande da Roush Performance, durante o Sema Show 2006. Foose foi às lágrimas, assim como seu pai, esposa e muita gente que viu de perto a gravação.


Conhecida pelos motores e modelos Ford endiabrados, a Roush, evidentemente, enfiou um V8 do mal sob o capô de altura reduzida — uma das idéias dos desenhos de Foose. Comprovamos isso durante uma volta da Foose Design até a praia (Huntington Beach), distante alguns quilômetros. O fotógrafo João Mantovani foi a passeio com o customizador ao volante. “Dione” nem precisou gastar o inglês meia-boca dele com o cara. Afinal, essa é uma experiência para ficar calado e apreciar! Mas em português bem claro, quando chegamos à avenida da praia, ele confessou: “A picape anda muito e o cara acelera bem. A-NI-MAL!”.


Mesmo com relações longas, o câmbio automático de três velocidades parece curto. Os pneus BFGoodrich 305/35 R20 na traseira não suportam o torque do big block de 7,4 litros e lixam com força. Claro, são 60 kgfm, é para borrachar feito gente grande! Como cheguei atrasado ao ensaio, tive que me contentar com algumas manobras com a picape. Há um bom tempo, não pegava um antigo assim, nervosão, carburado. O quadrijet Holley 770 cfm acerta a proporção de ar e gasolina a caminho do motor e exige apenas uma casquinha do acelerador, enquanto se vira a chave para o veoitão funcionar. Ou seja, foi só bater na chave com um pouco de pé direito para os escapes gritarem. Coisa linda!

Os 455 cv roncam ao serem acordados e a lenta, pouco acima de 1.000 rpm, convida para uma volta mais agressiva. Foose confessa que curte o carro no limite. “Amo essa F-100. Primeiro, porque é o carro que aprendi a dirigir, aos 12 anos. Segundo, porque foi do meu pai e será do meu filho, Brock. Só não sei daqui quanto tempo, nem se será com esse big block. Não há dinheiro que me faça vendê-lo”, confessa o especialista, acelerado para ir à reunião de pais e mestres na escola dos filhos.


Eu, curioso, ele, com pressa, perguntei o que acontece ao rodar sem espelhos externos nesta “fifty six” e com placa traseira preta, que nem sequer existe na Califórnia. Sem titubear ele responde: “Sem espelhos, o estilo melhora e a placa preta eu pintei sem dó!”. Ficou melhor mesmo. O interior também tem um estilo que dá raiva, tanto pela qualidade quanto pelo acerto de cores. O galão em laranja dá um acabamento arrojado para quebrar a sobriedade do preto e cinza. O pinstriping do painel acompanha o revestimento. Painel e volante originais mantêm a classe do F-100.


Foose garante que não mexe nesse carro, pela história do episódio e por ter sido feito com a participação de seu pai. Porém, ele conta que na F-100 pensada por ele e desenhada anteriormente, há detalhes que serão feitos em uma das outras duas F mantidas no estacionamento de sua oficina. “Além de alterações visuais leves, algo necessário nesse modelo é mais espaço para as pernas. Então, vou cortar a parede corta-fogo, perto dos pedais e jogar mais para frente, cerca de 10 cm. Como o cofre do motor é grande, não vai fazer diferença para a frente, mas, sim, para quem rodar na picape com essa alteração”, comenta.

As rodas Foose Design e uma pintura espelhada, muito lisa e com direito a um pin duplo (cinza), seriam suficientes para quem gosta de ver um carro lindo — e olha que esse tem vidros brancos, como todos os projetos do customizador. Entretanto, os gigantes discos de freios nas quatro rodas, com pinças Baer estampadas com o logo Foose mostram que o buraco é mais embaixo.

A caçamba de madeira, imaculada, não leva nada depois da reforma e assim será. Perguntado se na traseira não há muito freio para pouco peso, Foose responde: ”Nem uso muito o freio. O pouco que rodo é para acelerar.” Assim, ele se despediu e saiu fritando os pneus no estacionamento fechado para as fotos, a caminho da escola dos filhos. Realmente, ele usa a F-100 com o acelerador apertado!

* Texto: Eduardo Bernasconi - Fotos: João Mantovani/Revista Fullpower.

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